Em julho do ano passado, as investigações
sobre as contas milionárias do ex-prefeito Paulo
Maluf no exterior pareciam caminhar para um beco sem saída.
Quase cinco anos de trabalho haviam produzido milhares de
documentos e depoimentos explosivos de testemunhas-chave.
Mas ainda não existia um processo na Justiça
e as chances de Maluf ficar livre de qualquer punição
aumentavam um pouco a cada dia.
Promotores estaduais e procuradores federais envolvidos
com as várias frentes do caso passavam boa parte
do tempo falando mal uns dos outros. Autoridades da Suíça
ameaçavam liberar o dinheiro bloqueado nas contas
de Maluf e pedir de volta os documentos que tinham enviado
ao Brasil. A maioria dos papéis ainda não
fora sequer examinada.
Pouco mais de um ano depois, a situação é
bem diferente. Maluf e seu filho Flávio estão
presos há duas semanas numa cela da Polícia
Federal, em São Paulo. O patrimônio da família
está bloqueado pela Justiça, incluindo a mansão
do ex-prefeito e as ações de sua empresa,
a Eucatex. Maluf é acusado de crimes que poderiam
fazê-lo passar 31 anos na prisão, se recebesse
as penas máximas previstas pela legislação.
A sorte do ex-prefeito mudou tanto de um momento para o
outro por várias razões. Documentos decisivos
custaram a aparecer e personagens importantes do caso só
abriram a boca agora. Mas o motivo principal é que
os diversos órgãos envolvidos nas investigações
passaram a trabalhar de forma mais eficaz, depois de um
demorado aprendizado.
"Fomos treinados para combater crimes dentro do país
e não para lidar com um escândalo internacional
como esse", diz o procurador federal Pedro Barbosa
Pereira Neto, um dos autores da denúncia que levou
Maluf para a cadeia no início do mês. "Ficamos
batendo cabeças por muito tempo até acertar
o passo."
Tudo começou em novembro de 1999, quando o inspetor
David Minty, da unidade de crimes financeiros da polícia
de Jersey, uma ilha no Canal da Mancha que é uma
possessão britânica e funciona como um paraíso
fiscal, começou a fazer perguntas sobre Maluf. A
primeira pessoa que o ouviu no Brasil foi a procuradora
Adrienne Senna, que na época presidia o Conselho
de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
De acordo com a história que Minty contava, empresas
ligadas a Maluf e seus filhos tinham movimentado centenas
de milhões de dólares em Jersey. O inspetor
queria saber quem era Maluf e se havia algo contra ele que
justificasse o bloqueio do dinheiro encontrado na ilha e
a abertura de um inquérito sobre sua origem.
Era o suficiente para chamar atenção no Brasil,
mas a notícia demorou para se espalhar. O Coaf era
uma instituição nova e mal aparelhada, e a
lei que define a lavagem de dinheiro como crime no país
acabara de completar seu primeiro aniversário. "Os
canais de cooperação internacional eram muito
incipientes e o Brasil ainda estava aprendendo a regra do
jogo", conta Adrienne.
O Coaf avisou primeiro a Polícia Federal. Não
havia nenhuma investigação em curso que pudesse
ajudar Minty e ninguém fez mais nada ali. Em seguida,
Adrienne procurou o promotor estadual Marcelo Mendroni,
que na época investigava o superfaturamento do túnel
Ayrton Senna, uma das principais obras da administração
Maluf em São Paulo.
Mendroni se interessou pelo caso e passou a trocar mensagens
com Minty pela internet. Falaram duas vezes pelo telefone.
O promotor avisou seus superiores que estava fazendo isso
e trabalhou meses em silêncio. "Eu tinha medo
de que sumissem com o dinheiro se alguém no Brasil
soubesse da investigação e por isso mantive
o sigilo", diz Mendroni.
Um ano mais tarde, Mendroni mandou para Minty um pedido
de bloqueio das contas de Maluf. Redigido em inglês
claudicante, o documento descrevia superficialmente as investigações
que o promotor conduzia. Mas a iniciativa deu certo, porque
aparentemente garantiu o bloqueio do dinheiro, embora até
hoje as autoridades não saibam dizer ao certo quanto
ficou retido na ilha.
Mendroni continou se correspondendo com Minty, mas tinha
pouca informação para oferecer e não
conseguia nada em troca. A investigação ficou
meses em banho-maria, até que sua existência
foi revelada pelo jornal "Folha de S. Paulo",
em junho de 2001. A notícia encheu Maluf de indignação
e deu novo impulso ao caso.
A procuradora Denise Abade, do Ministério Público
Federal, abriu um inquérito criminal. No dia seguinte,
três promotores estaduais que eram de um departamento
diferente do de Mendroni abriram um inquérito cível,
para buscar uma ligação entre o dinheiro de
Maluf no exterior e o superfaturamento das obras feitas
pela prefeitura na sua gestão.
Atirando a esmo, o promotor Silvio Antonio Marques, que
cuidava do caso na área cível, pediu informações
a mais de 40 países. Os procuradores federais foram
até Jersey sem avisar os promotores. Voltaram sem
nada e deixaram os funcionários da ilha com a impressão
de que o melhor a fazer era duvidar dos brasileiros.
Para alegria dos advogados de Maluf, a competição
atrapalhou bastante as investigações. Os desencontros
diminuíram quando a Justiça definiu que os
federais deveriam conduzir o inquérito criminal,
mas nunca desapareceram por completo, o que prejudicou muito
os esforços para obter a cooperação
dos países que deram abrigo ao dinheiro de Maluf.
Jersey até hoje não entregou os documentos
que tem sobre as contas do ex-prefeito. A Suíça
só liberou seus papéis em março do
ano passado, dois anos e meio depois de informar ao governo
brasileiro que o dinheiro de Maluf e seus filhos estivera
em Genebra antes de migrar para Jersey.
Contribuiu para isso a fragilidade das investigações,
que demoraram a produzir resultados. Havia evidências
de desvios nas obras de Maluf, mas faltavam provas que ligassem
o dinheiro ao ex-prefeito e às contas no exterior.
"Não podíamos admitir isso, mas no início
não tínhamos prova da origem criminosa dos
recursos", reconhece Marques.
Os promotores chegaram perto disso em 2002, quando conseguiram
esclarecer a maneira como o dinheiro destinado pela prefeitura
à construção da avenida Água
Espraiada fora desviado pelas empreiteiras contratadas por
Maluf e persuadiram um ex-diretor da construtora Mendes
Júnior, Simeão Damasceno de Oliveira, a contar
o que sabia.
Oliveira fez uma confissão completa, revelando que
Maluf mordia 20% do que as empreiteiras faturavam e descrevendo
os pagamentos efetuados no exterior. Mas a festa dos promotores
durou pouco. Meses depois, por razões até
hoje obscuras, Oliveira registrou em cartório uma
declaração negando tudo que dissera.
A chegada dos documentos da Suíça reanimou
o caso no ano passado. Promotores e procuradores encontraram
ali várias evidências de que as contas na Suíça
e em Jersey são mesmo de Maluf e seus filhos, ao
contrário do que o ex-prefeito sempre sustentou.
Eles acharam até o cartão de abertura de uma
das contas, com a assinatura do próprio Maluf.
Faltava o principal. Meses após a chegada da papelada,
ninguém fizera uma análise cuidadosa dos extratos
bancários e não havia uma acusação
formal contra Maluf na Justiça. Antes que o esforço
dos anos anteriores se tornasse inútil, os responsáveis
pelas investigações perceberam que era melhor
deixar de lado as diferenças e se concentrar no trabalho.
Numa reunião promovida pelo Ministério da
Justiça no fim de julho, representantes de todos
os órgãos envolvidos com o caso dividiram
tarefas e se comprometeram com metas e prazos. "Enquanto
Maluf e seus advogados trabalhavam em equipe, a gente andava
aos solavancos", diz a coordenadora-geral de recuperação
de ativos do ministério, Wannine Lima, que dirigiu
a reunião.
Abertos os primeiros processos contra Maluf na Justiça,
em outubro de 2004, ficou um pouco mais fácil pedir
ajuda às autoridades estrangeiras. Extratos de uma
conta aberta na França em nome da mulher de Maluf,
Sylvia, chegaram no início deste ano. Em março,
os Estados Unidos enviaram papéis ainda mais valiosos,
apontando dezenas de contas que alimentaram as de Maluf
ou receberam depósitos delas.
Dois outros fatores ajudaram. Depois dos atentados terroristas
de 2001, o combate à lavagem de dinheiro subiu na
lista de prioridades dos países ricos e eles ficaram
mais cooperativos. Além disso, policiais e procuradores
brasileiros que investigam os casos de evasão de
divisas descobertos a partir de remessas irregulares do
antigo Banestado desenvolveram um relacionamento bastante
próximo com os americanos.
Graças às evidências dos documentos
dos Estados Unidos e aos benefícios oferecidos pelo
instrumento da delação premiada, os procuradores
federais conseguiram tirar das sombras a testemunha que
faltava. O doleiro Vivaldo Alves, conhecido como Birigüi,
aceitou colaborar com as investigações em
junho e contou como movimentou US$ 161 milhões para
Maluf fora do país.
Valor Econômico (26.09.2005)
Ricardo Balthazar De São Paulo