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Concentração de poderes do órgão inquieta empresários
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DCI (29.07.2005)
Ygor Salles

A recém-criada Receita Federal do Brasil, mais conhecida como “Super-Receita”, foi bem recebida pelo setor empresarial, mas causa alguns temores. As principais críticas estão na concentração de poderes que o órgão terá na arrecadação e na fiscalização tributária, além dos problemas de atendimento aos contribuintes que serão observados em curto prazo.
Ela começa a funcionar a partir do dia 15 do próximo mês. Mas o atual secretário da Receita Federal e futuro chefe da Super-Receita, Jorge Rachid, disse que a fusão só ocorrerá, de fato, em agosto do próximo ano.
A princípio, os dois órgãos arrecadadores federais — a Receita Federal e a Secretaria da Receita Previdenciária — integrarão suas bases de dados e a fiscalização no próximo mês. A fusão física das estruturas, que ficará sob as asas do Ministério da Fazenda, fica para 2006.
Os empresários são unânimes em dizer que, na teoria, a mudança será benéfica porque simplificará os processos burocráticos fiscais.
“Como conceito, é bom e saudável que haja um enxugamento da máquina. Se você considerar que os dois tem bases de dados diferentes que agora serão um só, é um avanço”, explicou o assessor jurídico da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Hélcio Honda.
Segundo o ex-secretário da Receita Federal no governo de Fernando Henrique Cardoso e idealizador da Super-Receita, Everardo Maciel, a unificação é positiva para que se reduza o déficit da Previdência.
“Há muito mais fraudes na Previdência do que na Receita. Todo mundo hoje só tem um Cadastro de Pessoa Física (CPF), enquanto é comum encontrar pessoas com vários números do Programa de Integração Social (PIS). Imagina a fonte de fraude que é isso?”, disse o ex-secretário.
“Além disso, quem é preparado para fazer fiscalização de tributos também consegue fazer o mesmo com os recolhimentos previdenciários, mas o contrário não ocorre”, acrescentou.
O que preocupa o setor privado é o tamanho do poder que a Super-Receita terá na fiscalização e na edição de instruções normativas, considerado excessivo pelos empresários.
“A cada momento, a intenção é apertar cada vez mais a fiscalização. Para quem faz tudo conforme a lei, ótimo. Mas para quem não faz, será muito perigoso utilizar de subterfúgios fiscais duvidosos. Como sempre, há quem tenta se aproveitar disso, sempre terá reclamações”, avaliou o diretor comercial da consultoria tributária Confirp , Delso Viana.
“O trabalho de união dos dois órgãos está pautado em duas linhas, que é apertar o cerco na fiscalização, com a união definitiva dos bancos de dados, e a simplificação dos processos tributários. Tudo isso fará com que ainda haja a redução dos custos desta máquina”.
Já o presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), Gilberto Luiz do Amaral, é mais reticente em relação ao novo órgão, e disse temer que não haverá melhoras no trato com o contribuinte.
“O fato de congregar os órgãos arrecadadores é positivo porque racionaliza os procedimentos, mas isso só seria bom se houvesse respeito ao contribuinte”, disse o tributarista. “Até o momento, não ouvi falar em redução de obrigações e de tributos, apenas na concentração dos poderes. Eles deveriam inverter esta ordem: primeiro racionalizar, para depois concentrar.”
Atendimento lento
Uma questão que incomoda é a possibilidade de haver problemas de atendimento no primeiro ano de funcionamento da Super-Receita, já que a fiscalização será realizada em conjunto mas o atendimento aos contribuintes continuará a ser feito em separado por mais um ano.
“A Super-Receita terá que se estruturar para atender a demanda que terá. Os dois (Receita Federal e Receita Previdenciária) são morosos e com problemas de atendimento que poderão crescer neste período”, disse Viana.
“É muito complicado unir toda esta estrutura. É como se houvesse a fusão de duas grandes empresas. O Rachid terá muito trabalho”, avaliou Honda, que acha “saudável” que o órgão fique mais nas mãos dos atuais controladores da Receita Federal, em detrimento da Receita Previdenciária.
“É mais fácil resolver pendências na Receita Federal do que na Previdenciária. Talvez seja por isso que eles ficarão mais no controle”, acrescentou.

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