Empregado paga mais tributo direto que patrão
13/07/2005
Folha de S. Paulo (04.07.2005)
BRUNO LIMA
Assalariados pagam em tributos diretos no Brasil proporcionalmente
o dobro do que paga quem é patrão -tanto entre
os mais ricos quanto entre os mais pobres.
Dados preliminares de um detalhamento da POF 2002/2003 (Pesquisa
de Orçamentos Familiares, feita pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística) revelam que, entre os
10% mais ricos da população (com renda per
capita superior a R$ 957,96 por mês), os empregados
têm seus rendimentos pessoais abocanhados em 16%,
e os donos de empresas empregadoras, em 8%. Entre os 10%
mais pobres (com renda mensal per capita de até R$
40,89), os trabalhadores pagam 4%, e os patrões pagam
2%.
Elaborado por pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada) e do Cebrap (Centro Brasileiro
de Análise e Planejamento), o detalhamento mostra
que 9,5% da renda total das pessoas físicas no país
são gastos com tributos diretos como Imposto de Renda
da pessoa física, IPTU (Imposto Predial e Territorial
Urbano) e contribuições previdenciárias.
O estudo considera sempre a tributação direta
sobre as pessoas físicas, separando as famílias
pela espécie de rendimento predominante e pelas faixas
de renda per capita. No caso dos empregadores, não
são computados os tributos pagos pela pessoa jurídica.
"No caso dos tributos diretos, fica evidente que o
trabalhador assalariado paga muito. O detalhamento só
reforça o que a gente já sabe: que os tributos
no Brasil atuam de forma distorcida", afirma Bernardo
Campolina Diniz, pesquisador do Cebrap e um dos responsáveis
pelo estudo.
A baixa progressividade da tributação direta
é outro ponto relevante. Enquanto as famílias
de menor renda no país direcionam cerca de 4% do
que ganham para o pagamento desses tributos, as que têm
os mais altos ganhos (os 10% mais ricos) contribuem com
12%. De um extremo a outro, a renda per capita média
salta de R$ 23,80 ao mês para R$ 2.126,53.
No Brasil, embora já tenha se tornado rotina reclamar
do peso de impostos como o IR, a fatia da renda disponível
consumida pela tributação direta (9,5%) é
bem menor do que a existente nos países desenvolvidos,
onde o peso fica entre 30% e 45%. Aqui, no entanto, a carga
da tributação indireta -aquela que é
repassada ao cidadão no preço dos bens de
consumo- é bem mais elevada.
"Sobretudo se considerarmos que a tributação
indireta continua punindo mais as famílias dos estratos
inferiores de renda [que gastam praticamente tudo o que
recebem em bens de consumo], o grau de progressividade da
tributação direta é insuficiente para
contrabalançar isso", argumenta Fernando Gaiger
Silveira, pesquisador do Ipea, órgão ligado
ao Ministério do Planejamento, Orçamento e
Gestão.
Segundo o pesquisador, países como a Suécia
e a Dinamarca têm níveis de progressividade
na tributação direta menores do que o brasileiro,
mas o resultado final não é tão preocupante
porque a menor desigualdade de renda e o maior peso dos
tributos diretos na arrecadação total contribuem
para corrigir essa distorção.
Quem paga menos
Para as famílias de maior rendimento médio
do país (cerca de R$ 2.700 per capita), cujos recursos
vêm predominantemente da venda de ativos e das aplicações
de capital, a carga dos tributos diretos representa apenas
5%. Famílias de assalariados com renda per capita
de R$ 309 e R$ 129 pagam, respectivamente, 8% e 6%.
"A grande injustiça é que, se a pessoa
trabalha ou produz [como empresária], tem altíssima
carga tributária. Já quem vive da especulação
financeira, diretamente do seu capital, está em um
paraíso fiscal", afirma Gilberto Luiz do Amaral,
presidente do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento
Tributário) e da Associação Brasileira
de Defesa do Contribuinte.
Segundo ele, os dados obtidos com o detalhamento da POF
também são apurados em vários países,
mas, no Brasil, a comparação entre a tributação
de assalariados e patrões precisa ser feita com mais
cuidado. "A pessoa que vive do salário tem carga
tributária direta alta, mas a que vive do investimento
produtivo também tem uma carga muito forte na formação
do lucro, antes de ele ser distribuído [aos sócios
da empresa]." Para Amaral, seria errôneo concluir
que o empresário paga pouco em tributos.
Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese
(Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
Sócio-Econômicos), discorda dessa tese. "Esse
retrato [o estudo] revela somente a ponta de um iceberg
cuja problemática é muito maior. Muitas despesas
pessoais do empresário são mascaradas como
sendo da empresa para não aparecer como renda monetária."